A Caverna de Platão, o Espaço Transicional de Winnicott e a atual Pandemia da Covid-19.

Artigo Original Inédito: Autora Miriam Burd. Maio de 2020.
Resumo:
O artigo pretende fazer um paralelo entre dois pensamentos, um filosófico e outro psicanalítico, e a Pandemia da Covid-19 por que passa o mundo neste momento. Foi decisão da OMS ‘prescrever’ distanciamento social, enquanto Medicina procura estudar melhor uma doença nova, que se propaga com grande velocidade antes do contato de pessoas infectadas e se mostra preocupante com desfecho mortal principalmente das pessoas de grupos de risco, e os serviços médicos se preparam para receber os doentes com um mínimo de possibilidades de tratamento.

O pensamento filosófico é o do ‘Mito da Caverna’ de Platão e o pensamento psicanalítico é o de ‘Espaço Transacional’ de Dooald Winnicott. Para os dois pensadores, o mundo é a ‘casa’ dos seres humanos e as regras impostas pela sociedade em que vivem influenciam as crenças, as informações e tudo que a cultura fortalece ou aprisiona as pessoas. A caverna isola escravos humanos do mundo exterior, o espaço transicional une os espaços exterior ao interior dos homens.


A partir de pesquisas em artigos sobre os assuntos a serem abordados, tentamos fazer um paralelo entre aquilo que os seres humanos estão passando, a infecção por um vírus desconhecido e que não tem medicamento e nem vacina e a possibilidade de alguns de ficarem em casa, mesmo que para isso possam perder seu emprego e a economia do mundo possa entrar em recessão, prejudicando empresas, empregados e tudo que os cerca.

O vírus põe à prova o ser humano, neste momento fragilizado diante da doença desconhecida a ciência e os cientistas estão procurando soluções para a pandemia e desafios e soluções precisam ser encontradas paia liberar os homens do seu isolamento. Enquanto isso o espaço doméstico é o lugar mais seguro. Nessa possibilidade de transição, a casa pode ser encarada como uma caverna ou então um espaço de convivência e de vivência transicional prazerosa.


A história alegórica foi narrada na obra de Platão, A República, livro VII, um diálogo socrático escrito por Platão, filósofo grego no século IV a.C. Todo o diálogo é narrado, em primeira pessoa, por Sócrates, personagem principal, e Glauco, o interlocutor. De acordo com o Mito da Caverna, ou Alegoria da Caverna, havia algumas pessoas aprisionadas em uma caverna desde a infância. Esses viviam com os braços, pernas e pescoços acorrentados, visualizando apenas as suas sombras, projetadas na parede ao fundo da caverna. Atrás deles havia uma fogueira na qual homens passavam perto transportando objetos e fazendo gestos. Esses refletiam em sombras (distorcidas) para os que estavam ali dentro e era o conhecimento que tinham. Logo, um dos prisioneiros conseguiu se libertar e saiu para o mundo exterior, sendo surpreendido com a nova realidade.

Contudo, a luz solar ofuscou a visão do ex-prisioneiro, fazendo-o querer retornar à caverna. Entretanto, ele se acostumou com as novidades e a infinidade de coisas fora do mundo em que habitava. Foi quando ele percebeu que as sombras que via eram apenas uma cópia imperfeita da realidade que acreditava. Desse modo, ele poderia fazer duas coisas: voltar à caverna e libertar os demais colegas prisioneiros ou permanecer vivendo a sua liberdade. A consequência da primeira opção poderia ser rotularem-no como louco e o atacarem, mas poderia ser uma atitude necessária, por ser o mais justo a se fazer.

O conceito de ‘Espaço Transicional’ demarca um território intermediário entre os mundos interno e externo. O psicanalista inglês Donald Winnicott também chamou o espaço transicional de ‘espaço potencial’ porque, para ele, é essa a área em que se desenvolve a criatividade e a produção cultural enraizadas nas brincadeiras das crianças. É nesse espaço que se produzem muitas das atividades criativas do homem, como as artes, a música e conhecimento, que ‘representam’ o mundo interno para o exterior e, em certo sentido, ‘representam’ a realidade para si mesmo. Esse conceito influenciou sobremaneira a forma como os profissionais psis veem o entendimento do desenvolvimento emocional primitivo do homem. Isso porque o SER HUMANO, que faz parte desse planeta, desse ecossistema, é o representante aqui da missão derradeira de discutir e criar, de forma urgente, formas de ajudar o planeta.


Para Winnicott, que durante toda a sua vida e no seu trabalho com as crianças e suas mães (ou cuidadores), ele observou o desenvolvimento dos bebês, acreditava que haveria três espaços psíquicos a serem percorridos pelo ser humano para desenvolver o seu “SELF”, isto é, a sua personalidade como uni todo. O bebê ao nascer é totalmente dependente de outro ser humano para continuar existindo. Ele não tem ainda um self desenvolvido, integrado e separado do seu cuidador. Ele alucina, está no espaço da ilusão, o espaço interno. À medida que ele é cuidado, por uma ‘Mãe Suficientemente Boa’, outro conceito fundamental do autor, o bebê passa para um ‘espaço intermediário’, potencial, que permite que ele entre na CULTURA, na civilização.


Para Winnicott. o ‘espaço transicional’ é o espaço intermediário que vai do narcisismo primário para o julgamento da realidade. É a mãe (o cuidador) que unifica o self seu bebê. A mãe que não deve ser perfeita, deve ser ‘suficientemente boa’, porque precisa falhar em algumas situações, mas precisa estar sintonizada com o seu bebê e saber o que ele necessita. Essas poucas falhas vão propiciar a salda do ‘espaço da ilusão’ para o ‘espaço transicional’. E a partir desses conceitos o desenvolvimento do ser humano é demonstrado.

O bebê humano entra através desse espaço na civilização, na cultura, no ambiente e se prepara para o ‘espaço da realidade’. Se esse espaço for rico de objetos, de relações objetais, dará ensejo á criatividade, ao brincar, às situações prazerosas. Essas atividades não devem cessar no período de bebê, devem continuar por todas as fases da vida. É um espaço que o convida a viver, um lugar pra morar. Mas os outros seres humanos também precisam pensar dessa forma… ‘o mundo não é só meu… preciso deixar para os outros .. o mundo é para compartilhar para as próximas gerações’.


Esse lugar precisa ser saudável, feliz, criativo, prazeroso, dar oportunidade ao brincar pela vida inteira. Precisa ser um ‘espaço transicional’ que oferece refúgio para as frustrações, para o estresse diário, um lugar de encontros generosos, compartilhando afetos, se possa receba e visitar amigos, conhecer pessoas. escrever livros, tocar musica. pensar cal soluções para o nosso ecossistema, sonhar acordado e criar soluções.

Para Winnicott, e para cada um de nós, o lugar em que vivemos deveria ser único: terra firme, porto seguro, numa rocha sólida e para um inglês como ele. o seu ‘castelo’. Nos nossos dias, passamos muito pouco tempo nesse lugar. O estresse diário representados por correria, trânsito caótico, alimentação errada, falta de descanso, falta de atividades de lazer, poucas horas mal dormidas, habitação em local insalubre, pode colocar o homem sujeito a doenças psicossomáticas.


Trazendo a Alegoria da Caverna para o nosso tempo, podemos dizer que o ser humano tem regredido constantemente, a ponto de estar, cada vez mais, vivendo como um prisioneiro da caverna, apesar de toda a informação e todo o conhecimento que temos à nossa disposição. Algumas pessoas vivem confinadas numa caverna, acorrentadas e obrigadas a permanecerem cativas e trabalharem pra um senhor cruel. são cativos porque lhes contaram que lá fora haveria monstros que os devorariam se saíssem Um escravo consegue fugir e vislumbra a liberdade antes desconhecida. volta pra contar aos outro,. fora da caverna há uma vida melhor para ser vivida, os escravizados, com medo que ele estivesse louco, o matam. O desconhecido ameaça, mas o conhecido também. E o mito se atualiza… É Universal…E agora temos também o coronavirus…


Existem muitas interpretações que podem ser retiradas da metáfora. Algumas perspectivas, inclusive, foram inspiração para a construção de obras de artes, livros e filmes. A saída da caverna significa buscar o conhecimento verdadeiro. A luz solar que ofusca a visão do prisioneiro liberto e o coloca em uma situação de desconforto, é o conhecimento verdadeiro. a razão e a filosofia.

Diante da pandemia e da necessidade de se ficar em casa, as pessoas se diferenciam no comportamento e nos sentimentos diante dessa situação. Há a pessoa satisfeita com a possibilidade de estar a salvo em casa. A rotina não é novidade, mesmo que antes trabalhasse fora também fazia as atividades ligadas à casa. Seus hábitos não mudaram muito, só que agora essas atrações podem ser compartilhadas pelas outras pessoas que moram com ele, tem mas tempo e condições de fazer bem feito e de forma agradável. A maioria não vai perder o emprego e a renda, são funcionários públicos ou têm um emprego estável. Outros podem já estar perto da aposentadoria, têm um lastro firmado e uma vida confortável.

A pessoa frustrada é aquela que com o isolamento social perdeu a sua produtividade, tenta outras atividades dentro de casa para recuperar o que deixou do lado de fora. Nem sempre conseguem, mas estão dispostos a tentar algo criativo e inovador. Estão incomodados, mas tentam de tudo para se sentirem úteis e produtivos. Acreditam que podem recuperar futuramente emprego e renda. Têm autoestima alta e reconhecem a sua competência. Embora frustrado ainda reconhece que sair de casa é um risco que não se permite correr.


A pessoa que se sente um prisioneiro, quer sair de casa o mais rápido possível. O seu estilo de vida é estar sempre fora de casa. Nenhuma atividade dentro de casa é agradável. Veem a casa como uma caverna, se sentem aprisionados e tolhidos no seu ir e vir. Estão pensando muito na economia, no mercado, na situação financeira e querem voltar a exercer suas atividades anteriores. Muitos são jovens e ativos. O pensamento é acelerado e têm muitas ideias para serem realizadas.


A pessoa carente, que sente saudades das pessoas com quem não está convivendo. querem voltar rápido ás relações afetivas anteriores. As reuniões, o cafezinho entre colegas de trabalho, as festas, em família e entre amigos, precisam voltar a acontecer e, às vezes, até se expõem a riscos. Podem também ser pessoas que o exercício físico é muito importante e podem sair às ruas sem a proteção devida.


O desassistido, aquele que trabalha de forma informal, sem vinculo empregatício, por sua conta e risco, já vive há anos de pequenos serviços, de forma autônoma, sem carteira assinada. Como vendedor de rua, essa pessoa pode viver nas comunidades, numa casa pequena, sem claridade, sem saneamento básico. A violência também é compartilhada e o ir e vir é mediado pela violência urbana. Se sente prisioneiro do lugar em que vive, as correntes são concretas, as regras são arbitrárias e passa a depender da solidariedade, do governo, de uma cesta-básica doada, de uma ‘quentinha’ para almoçar ou jantar. Esse ainda é um escravo da caverna, falta tudo.,sem recursos escolares foi alijado de muitas benécies da vida. Segue paciente, ou mesmo impacientemente, chegar ao fim de semana, o futebol no campinho, a roda de samba, a feira livre, o movimento do bairro. Para ele é difícil ficar em casa e se sentir bem. Para ele ficar isolado é bastante sacrificante, é uma penúria a mais. Pode se expor a risco porque não tem muito que perder.


Outros se refugiam nos sítios. nas casas de campo e praia. Têm o privilégio de ter a natureza, o verde, a calmaria, muitos estão isolados com parte da família. Sua vida mudou muito porque estão acostumados com a agitação da cidade. Se é uma pessoa de bem com a vida procura na leitura, nos banhos de sol, nas caminhadas em trilhas, o refúgio para a pandemia. A vida mudou na cidade, ele precisará voltar ao trabalho, à agitação e à incerteza de como serão os próximos meses.

E não podemos deixar de falar na pessoa que literalmente precisa sair de casa para trabalhar nos serviços essenciais. São profissionais de saúde, da limpeza, como os garis, cuidadores, entregadores, balconistas e repositores de supermercados e farmácias, cozinheiros, etc. Para esses a pandemia trouxe mais trabalho e mais risco. São os profissionais cuidadores especiais na pandemia e que permite que os outros possam ficar em casa de forma segura. Para eles sair para o exterior traz riscos para o interior. Muitos já estão morando fora de casa para preservar a família. A esse, o cuidado extremo pode preservá-los da infecção, embora muitos já adoeceram e vieram á óbito. A esses, a vontade e a necessidade de cuidar fala mais forte e o risco é delegado a segundo plano.


Com relação às expectativas das pessoas quanto á pandemia passar, elas podem ser otimistas, pessimistas, relativistas, céticas, utópicas ou realistas ao extremo e podem deixar passar essa experiência como uma oportunidade de mudanças no seu comportamento e no das pessoas ao seu redor. Nossas frustrações e nossas potencialidades precisam estar ao alcance de rever atitudes que apenas nos levam ao estresse diário e não permitem ser mais realizadoras. As mudanças certamente vão ocorrer. Não se passa por uma pandemia desse espectro e tamanho sem haver mudanças. Muitos vão ter de recomeçar do ponto zero, outros recomeçarão do ponto que pararam antes de tudo isso acontecer. Muitas serão as perdas, mas a visão de mundo vai e, necessariamente, precisará mudar.

Passaremos pelo medo, pela ansiedade, pela incerteza de como será o futuro próximo e o mais distante. Voltar a se expor também vai nos levar à ansiedade, hábitos adquiridos precisarão ser incorporados, outros afastados. A casa circunscrita e com paredes bem definidas será desmontada. O exterior parecerá assustador, perigoso. É aquela situação da luz solar do prisioneiro da caverna recém liberto que lhe causou no início o ofuscamento. Depois nos acostumaremos de novo.

Passaremos por um período de muita recessão, os empregos serão escassos. teremos que nos reinventar. O equilíbrio precisará ser novamente buscado, a natureza estará diferente, talvez mais radiante, ofuscante. As respostas coletivas precisarão permitir mais coesão e união de esforços. A solidariedade e as ações coletivas serão cada vez mais importantes.

Como nos disse Platão, nas suas conversas com Sócrates e Glauco, podemos voltar à caverna e continuarmos prisioneiros, mas como nos diz Winnicott, se nosso desenvolvimento emocional foi bem realizado, voltaremos mais fortes dessa experiência. Do espaço potencial o faremos transicional, isto é, mais criativo, mais fortalecedor. Quando o ser humano consegue se libertar das correntes e viver o mundo exterior, aquele que vai além do juízo de valor, conquista o conhecimento verdadeiro e ele sai da caverna. Faz o indivíduo sentir que a vida vale a pena ser vivida, uma atividade colorida pela sua criatividade.

Referências bibliográficas:
-A República. A alegoria da Caverna. Livro VII. Ed. Lafonte, 2017;
-Porfirio. Francisco. “Mito da Caverna”; Brasil Escola. Disponível em: hnps://brasilescola.uol.com.bilfilosofia/mito-caverna-pbtao.htm. Acesso em 08 de maio de 2020;

  • Winnicott. D. O Brincar e a Realidade. RJ: Editora Imago. 1975.
  • Imagens encontradas na internei.

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