Movimento antivacina


Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou a “hesitação em relação às vacinas”, isto é, a relutância ou recusa a se vacinar apesar da disponibilidade das vacinas, uma das 10 principais ameaças à saúde.

As vacinas são uma das formas mais custo-eficazes de evitar doenças. Por ano, elas previnem em torno de 2 a 3 milhões de mortes, e esse número poderia subir ainda mais se a adesão à vacinação fosse melhor. 

Uma breve história das vacinas 

Existem evidências de que países como China e Turquia expunham pessoas saudáveis a materiais e tecidos infectados pela varíola desde o século XX. No entanto, as vacinas foram desenvolvidas apenas após o britânico Edward Jenner realizar um experimento em um menino de 8 anos. O cientista inoculou o pus de vacas com a doença no menino. A varíola bovina é de menor gravidade. O menino desenvolveu sintomas como febre e mal-estar, mas melhorou após alguns dias. 

Então, Jenner inoculou no menino nova forma da doença, agora a varíola em sua forma mais grave. Ficou surpreso ao ver que ele não apresentou sinais de infecção. A partir de então, começaram os estudos para a produção de vacinas. 

Em 1885, por exemplo, Louis Pauster desenvolveu a vacina contra a raiva, salvando milhares de pessoas. Com o passar do tempo, os estudos se intensificaram e também os efeitos positivos das vacinas. Um exemplo de sucesso tremendo é a varíola. 

O êxito das Campanhas de Vacinação contra a varíola na década dos anos sessenta mostrou que a vacinação em massa tinha o poder de erradicar a doença. O último caso de varíola notificado no Brasil foi em 1971.

Fonte: BBC

Por que, então, de hora para outra, as pessoas resolveram parar de vacinar os seus filhos?

Tudo começou em 1998 quando o médico britânico Andrew Wakefield – que hoje em dia perdeu sua licença e não é mais autorizado a praticar a medicina – publicou na revista The Lancet, de imenso prestígio na comunidade científica internacional, um estudo de 12 pacientes que afirmava que crianças vacinadas teriam maior chance de desenvolver o autismo.

No entanto, após a publicação, vários novos estudos foram conduzidos e demonstraram que a afirmação não era verdadeira. Com o tempo, Wakefield e seus colegas foram investigados e então foi descoberto que a publicação do artigo tinha sido induzida por ganhos financeiros do médico, que havia sido pago por um escritório de advocacia envolvido em processos contra indústrias farmacêuticas produtoras de vacinas. 

Em 2010, a revista despublicou o artigo, a primeira vez que isso aconteceu na história da medicina. No entanto, o estrago já havia sido feito. O número de vacinações caiu, ao passo que o de crianças infectadas por doenças preveníveis aumentou. 

Mitos do movimento antivacina

Dentre os argumentos mais comuns do movimento, estão os seguintes:

“A maioria das pessoas que adquire doenças foi vacinada”

De fato, isso é verdade. Mas falta lógica matemática no argumento. Primeiro, não há vacina que seja 100% eficaz. A maioria delas tem uma eficácia entre 85 e 95%. Some isso ao fato da maioria das pessoas ser vacinada: matematicamente falando, se houver o surto de uma doença, as pessoas vacinadas infectadas serão a maioria. 

Por exemplo, pense em um colégio com 1.000 alunos, nenhum dos quais já teve sarampo. Apenas 5 alunos do colégio não foram imunizados com duas doses da vacina. Se todos forem expostos ao vírus, o que acontece? Todos os 5 que não tomaram a vacina se tornam infectados. Considerando que a eficácia de duas doses da vacina contra sarampo é de mais que 99%, em 7 dos alunos que tomaram a vacina ela não fará efeito. Assim, teremos 12 infectados, e a maioria (58%) tomou a vacina. Mas isso olhando em números absolutos! Pensando nas proporções, enquanto apenas 1% dos que tomaram a vacina se infectou, 100% dos que não tomaram adquire a doença!! 

“As doenças já estavam diminuindo quando as vacinas surgiram, por conta da melhor higiene e saneamento básico”

Outra meia verdade. É inegável que esses avanços diminuíram as infecções. Mas como explicar a queda abrupta das doenças que coincide com a introdução das vacinas? E seu aumento exponencial quando elas são interrompidas?

“Dar a uma criança várias vacinas para diferentes doenças ao mesmo tempo aumenta o risco de efeitos colaterais prejudiciais e pode sobrecarregar o sistema imunológico”.

As crianças são expostas a muitos antígenos estranhos todos os dias. Comer introduz novas bactérias no corpo, e inúmeras bactérias vivem na boca e no nariz, expondo o sistema imunológico a ainda mais antígenos. De acordo com um relatório de 1994 do Institute of Medicine nos Estados Unidos “Em face desses eventos normais, parece improvável que o número de antígenos separados contidos nas vacinas infantis (…) represente uma carga adicional apreciável no sistema imunológico que seria imuno-supressora”.

De fato, os dados científicos disponíveis mostram que a vacinação simultânea com várias vacinas não tem efeito adverso no sistema imunológico normal da infância.

Vários estudos e revisões foram realizados para examinar os efeitos de administrar várias combinações de vacinas simultaneamente. Esses estudos demonstraram que as vacinas recomendadas são tão eficazes em combinação quanto individualmente e que essas combinações não apresentam maior risco de efeitos colaterais adversos.

“Não vacinar é uma escolha individual”

Na verdade, não. Primeiro, as crianças são legal e biologicamente consideradas incapazes de decidir por si na idade em que necessitarão de vacinas. 

Segundo, grande parte do efeito da vacinação depende do chamado “efeito rebanho”. Quando as pessoas são vacinadas, elas diminuem a chance de transmitir a doença. 

Além disso, o maior problema de não vacinar é expor crianças menores, especialmente bebês e recém-nascidos que ainda não têm idade para serem vacinados, às doenças. Isso é especialmente complicado pois essa é justamente a população com a maior vulnerabilidade e em quem os efeitos das doenças são mais desastrosos.

Portanto, lembre-se que a vacinação é um ato de consciência de saúde pública e do coletivo! 

Para mais informações, acesse as referências listadas abaixo.

Referências: 

https://www.historyofvaccines.org/timeline/all
https://www.who.int/vaccine_safety/initiative/detection/immunization_misconceptions/en/index2.html
https://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/vacinacao
https://www.who.int/news-room/feature-stories/ten-threats-to-global-health-in-2019
https://www.bbc.com/portuguese/geral-48631415
https://emais.estadao.com.br/noticias/bem-estar,vacinar-ou-nao-vacinar-eis-a-questao,10000074325

The MMR vaccine and autism: Sensation, refutation, retraction, and fraud; T. S. Sathyanarayana Rao and Chittaranjan Andrade.; Indian Journal of Psychiatry, 2011. Apr-Jun; 53(2): 95 – 96.

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