• 14 de outubro de 2009
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CBN

Proposta de Curso Básico Nuclear da ABMP

Versão revisada em 2011

1 – Considerações Iniciais

O Curso Básico Nuclear - CBN, de Formação em Psicossomática - adota como referência o eixo da interdisciplinaridade na área da saúde e das conexões sociopsicossomáticas, que definem a identidade e especificidade da ABMP.

O objetivo é que os associados e interessados, profissionais que atuam na área da saúde, tenham a possibilidade de usufruir uma complementação e qualificação da sua formação de graduação.

Com ele esperamos que os interessados possam ampliar o olhar sobre o adoecer humano, aproximando o “fragmento do todo”, mantendo na sua prática e sua técnica profissional específica, realizado pela aproximaçao e trocas entre as disciplinas que marcam as três vertentes do adoecer humano: biológica, psicológica e sociológica. Ou seja, o foco é no atendimento e auxílio de pessoas doentes, em seus contextos e com sua história, com seus sofrimentos. Isso não é propriedade de uma disciplina ou profissão em particular, mas o ponto de onde todos os profissionais devem partir: da escuta e da compreensão dessa pessoa que recebe.

Desse modo, pretende o CBN contribuir de forma importante para a coesão e unidade do movimento, na medida em que passamos a ter uma referência de qual curso de medicina psicossomática está se falando. É o da ABMP, elaborado pelo conjunto dos seus associados, através das Regionais e sob a coordenação da diretoria nacional, e focado nos eixos que definem sua identidade e especificidade.

Diretoria Nacional

2 – Justificativa

Um curso básico nuclear se justifica quando se pensa que uma entidade de fins científicos deve ter um tema central sobre o qual se debruça e se dedica. Não uma identidade de conclusões, o que levaria a alguma forma de dogmatismo, mas à delimitação do campo. É essa apresentação do campo que nos propomos a realizar, para que haja inuformidade de discussão e, portanto, avanço e integração do movimento causa e ocasião da AMBP.

3 – Objetivos

Objetivo geral

Desenvolver competências, que propiciem uma abordagem multi-articulada da pessoa, tanto na abordagem preventiva quanto curativa, considerando seu corpo somático, seu funcionamento psíquico e sua realidade social, buscando o estabelecimento de conexões sociopsicossomáticas através do exercício da interdisciplinaridade e de tendências atuais da pesquisa.

Objetivos específicos

Refletir sobre os conceitos fundamentais da medicina psicossomática, definindo seus termos, sua especificidade, sua fundamentação teórico-clínica, sua ética, suas origens e campo atual.

Construir um saber sobre o sentido do adoecer, que implique na verificação dos laços existentes entre o biológico, o psicológico e o sociológico.

Desenvolver a capacidade de estabelecer relações interpessoais, grupais e comunitárias, que privilegiem o saber escutar e saber falar, estimulando o diálogo entre o profissional de saúde – paciente e interprofissional, respeitando as diferenças pessoais e estimulando o aproveitamento máximo do potencial de cada um.

Estimular a cidadania e a participação ética na sociedade em que vivemos, vendo na saude o resultado das pressões sócio-culturais e políticas incidentes sobre a pessoa.

4 – Competências

Partindo do princípio de que competência é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos: conhecimentos, habilidades e atitudes, para solucionar, com pertinência e eficácia, uma série de situações – conceito baseado em Philippe Perrenoud –, o CBN se propõe a desenvolver as seguintes competências:

1 - Conhecer a história da medicina psicossomática.

2 - Discutir o seu conceito, espaços e papel.

3 - Identificar e descrever, no indivíduo, as manifestações somáticas, psicológicas e sociológicas.

4 - Identificar e descrever os mecanismos através dos quais se fazem as conexões entre as vertentes somática, psicológica e sociológica.

5 - Discutir o processo saúde-doença incluindo as políticas, instituições, profissionais, nos níveis de promoção, prevenção e recuperação.

6 - Identificar e saber lidar com as repercussões da tecnologia e das mudanças sociais sobre indivíduos e grupos humanos, na perspectiva sociopsicossomática.

7 - Exercer, de modo efetivo e bem articulado, a prática da interdisciplinaridade.

8 - Saber contribuir para a promoção da cidadania em si e nos outros.

9 - Estar apto a participar dos processos de construção da transdisciplinaridade.

10 - Adotar atitude investigativa, reflexiva e crítica no exercício profissional.

11- Saber se relacionar de forma cooperativa e amistosa, administrando e superando conflitos, na sua relação profissional.

12 - Estar sensível ao saber das disciplinas das outras vertentes do adoecer humano, mantendo a especificidade técnica profissional dada pela sua respectiva graduação.

5 – Público alvo

Os profissionais da Área de Saúde: médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, terapeutas-ocupacionais, assistentes sociais, nutricionistas, odontólogos, fonoaudiólogos, psicólogos, filósofos, administradores hospitalares, bem como sociólogos, advogados, arquitetos e quaisquer outros profissionais que estejam atuando na Área de Saúde e se interessem pelo curso, que, de algum modo, sua atuação profissional lide com o bem-estar humano.

6 – Ementa

História e conceitos da medicina psicossomática. Conexões sociopsicossomáticas. O processo saúde-doença. Visão biopsicossocial. Interdisciplinaridade e seu exercício. Ética e Cidadania. Tendências atuais. Pesquisa em Psicossomática.

7 – Metodologia

O CBN deve ser estruturado em dois a quatro módulos semestrais, de 40 a 60 horas, com duração de um a dois anos. A carga horária do total do CBN será de, no mínimo, 120 horas e, no máximo, 240 horas.

Cada módulo deve ser ministrado a partir de um modelo de seminário, através, sobretudo, de casos clínicos construídos e/ou situações clínicas que envolvam a participação de profissionais das vertentes biológica, psicológica e social. Recomenda-se também, a realização de mesas-redondas com a participação de profissionais das três vertentes. Eventualmente poderão ocorrer palestras.

8 – Avaliação

A avaliação dos alunos deverá considerar a freqüência às aulas e a participação efetiva na construção do caso clínico e demais atividades do curso.

9 – Diretrizes de Funcionamento do Curso Básico Nuclear (CBN)

9.1 - Uma das especificidades da medicina psicossomática é a interdisciplinaridade, portanto ela deve ser praticada desde o início até o final do curso. Este é um dispositivo muito importante do curso e há que insistir no seu exercício, na sua prática.

9.2 - A outra especificidade da medicina psicossomática, e também um dispositivo muito importante do curso, é a construção das conexões sociopsicossomáticas.

9.3 - A exposição detalhada de um “caso clínico” parte do princípio que a interdisciplinaridade é, na verdade, um exercício prático. A comissão de ensino da ABMP disponibilizará um "banco de dados" com casos clínicos, embora cada Regional possa fazer uso dos casos que julgar pertinentes, desde que sejam atendidas as recomendações dos itens 1 e 2 destas diretrizes. Sugere-se a possibilidade de utilizar, além de casos clínicos, temas ou situações que permitam a abordagem dos eixos, tais como os programas de atendimento a drogadictos, anoréticos e bulímicos, programas de atenção à mulher, grupo de pacientes doentes mentais, vítimas de violência doméstica, diabéticos, hipertensos, pacientes com dor, estresse, traumatizados, etc, convidando-se profissionais e/ou equipes que trabalhem com tais situações.

9.4 – Sempre que possíve, oferecer o levantamento de questões biológicas, psicológicas e sociológicas em torno de casos, com a presença de professores das três áres ou vertentes para que se propicie efetivamente a reflexão sobre a interdisciplinaridade e as conexões sociopsicossomáticas. Esta é uma atividade muito rica e produtiva, na medida em que se parte da visão específica de cada disciplina, para, num segundo momento, buscar-se a leitura integrada e articulada do caso.

9.5 - A discussão dos procedimentos interdisciplinares configura o exercício efetivo da compreensão biopsicosocial e a possibilidade da prática interdisciplinar.

9.6 - A possibilidade de o aluno participar de atividades ou estágios práticos, sob supervisão, é recomendável, sempre que possível, desde que, em Instituições, onde possa participar da discussão e construção dos “casos clínicos” e dos debates a partir das aproximações dos saberes representantes das vertentes do adoecer humano, mantendo suas especificidades técnicas profissionais, dadas pelo respectivo curso de graduação.

9.7 - As diretrizes sugeridas são norteadoras cabendo, a cada Regional, optar pela melhor forma de desenvolvê-las, teórica e praticamente.

10. Corpo Docente

Cada regional deverá ter um grupo de professores / profissionais habilitado, competente, experiente, bem escolhido e bem engajado nas propostas da ABMP, que determinarão e sustentarão as diretrizes de ensino, o eixo teórico-prático, a identidade do curso. Além destes podem ser convidados professores “de fora”, não associados, que trarão sua contribuição nas três vertentes. O corpo docente deve, necessariamente, ser constituído de profissionais das três vertentes: biológica, psicológica e social.

É recomendável, sempre que possível, que o grupo de professores se coloque à disposição dos alunos para acompanhá-los, orientá-los e supervisioná-los durante o curso, em horário e local que não sejam o das aulas. A sua função principal é “facilitar a aprendizagem”.

11 - Banco de Dados do CBN-ABMP

A idéia de um “banco de dados” foi criar e manter um dispositivo de apoio aos professores do CBN, facilitando o seu trabalho de ministrar o curso e de seguir as diretrizes da ABMP, quanto à especificidade da Medicina Psicossomática e a identidade da Associação. Este “banco de dados” será abastecido e atualizado, permanentemente, pela Comissão de Ensino.

O “banco de dados” constará de casos clínicos, capítulos de livros concernentes à medicina psicossomática, artigos ou trabalhos científicos de sócios da ABMP e textos produzidos por nossos associados, coerentes com o que estabelecem as “Diretrizes de Funcionamento do CBN”, e serão disponibilizados para consulta através da página da ABMP.

13 - Referências Bibliográficas

Abaixo alguns títulos que podem ser muito úteis para consulta em busca dos fundamentos da Psicossomática como se entende hoje e como entendemos seja seu campo de discussão. São algumas referências. Outras indicações podem ser encaminhadas a pedido das regionais e associados, para campos de interesse mais específicos.

BUCKINGHAM, J.C; GILLIES, G.; COWELL, A.M. Stress, Stress Hormones and the Immune System. New York, John Wiley & Sons Ldt., 1997.

 

SAPOLSKY, Robert M. Why Zebras Don’t Get Ulcers. 3th ed. New York, First Owl Books, 2004.

 

ADER, Robert (edt.). Psychoneuroimmunology. 4th ed. London, Academic Press/Elsevier, 2006.

 

SELYE, Hans. The Stress of My Life. Toronto, McClelland and Stewart Limited, 1977.

 

PINKER, Steven. The Blank Slate: the modern denial of the human nature. London, Penguin Books, 2003.

 

BATESON, Gregory. Steps to an Ecology of Mind. London, University of Chicago, 2000.

 

MELLO Fo. Julio (org). Psicossomática Hoje. 2. ed. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 2010.

 

ALEXANDER, Franz. Medicina Psicossomática: princípios e aplicações. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1989.

 

PERESTRELLO, D. A Medicina da Pessoa. 4. ed. São Paulo, Ed. Atheneu, 1996.